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Luiz Felipe Alencastro


A China e o conflito indo-paquistanês

Bandeira da China - Reprodução
Bandeira da China Imagem: Reprodução
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

04/10/2019 15h06

O 70º aniversário da fundação da República Popular da China deu lugar a editoriais, e estudos sobre a história recente do país. De uma maneira geral, os comentários sublinharam o extraordinário crescimento da China desde as reformas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978. Nesta perspectiva, a China só teria a ganhar com a estabilidade do comércio mundial, controlando pacificamente os efeitos da política tarifária americana e os tumultos de Hong Kong. Num documentário do canal franco-alemão Arte, um dirigente chinês afirma que a China dominará economicamente o mundo, seguindo as regras, sem utilizar a força ou se tornar um país imperialista.

A realidade é mais complexa, como mostra a evolução recente da crise entre a Índia e o Paquistão que envolve também a China. Na sequência da revogação da autonomia da Caxemira e do bloqueio desta região fronteiriça muçulmana pelo governo de Nova Délhi, a tensão subiu rapidamente entre a Índia e Paquistão. No seu discurso na ONU na semana passada, o primeiro-ministro paquistanês Imra Khan advertiu que a situação da Caxemira poderá provocar uma guerra nuclear entre os dois países. Um estudo de especialistas da Rutgers University e da Universidade do Colorado indica que um conflito nuclear entre os dois países poderá matar cerca de 125 milhões de pessoas nos dois países em alguns dias. Segundo o site de informações Eurasian Times, o exército indiano planeja agora colocar um milhão de minas terrestres na fronteira indo-paquistanesa.

Firme aliado de Beijing, o governo paquistanês compartilha númerosos projetos com a China e, notadamente, o chamado China-Pakistan Economic Corridor (CPEC). Vasta rede de estradas de ferro e de autoestradas, o CPEC une o porto paquistanês de Gwadar, no mar Arábico, e Karachi, à província de Xinjiang, no noroeste da China. Cruzando todo o território paquistanês, o CPEC também atravessa o norte da Caxemira cuja soberania é reivindicada pela Índia. Na semana passada, o ministro do exterior indiano, Raveesh Kumar, declarou que o CPEC é "ilegal" porque passa pelo "território ocupado pelo Paquistão". O chefe da diplomacia chinesa Wang Yi respondeu que Beijing defende que o conflito sobre a Caxemira seja resolvido pacificamente e em acordo com os tratados indo-paquistaneses, "conforme a Carta das Naçoes Unidas". Tradicionalmente, a Índia tem sido uma aliada da Rússia, enquanto o Paquistão se apoia na China. Contudo, está havendo uma aproximação crescente entre a Rússia e China, que compartilham iniciativas comerciais, de exploração espacial, interconectividade e defesa.

Em particular, os dois países colaboram num programa de alerta de ataques de misseis à China. Em 1962, a China e a Índia travaram uma guerra pelo controle de territórios do Himalaia. De seu lado, a Caxemira já foi disputada em duas guerras (1947-1948, 1965) indo-paquistanesas. Outra guerra entre os dois países deu lugar à independência do Bangladesh (1971). Em outras palavras, uma guerra indo-paquistanesa tem todas as chances de desencadear um conflito de grandes proporções que atingirá toda a humanidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL