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Luiz Felipe Alencastro


Os jesuítas no Japão ontem e hoje: a mensagem do papa Francisco

Papa Francisco cumprimenta sobreviventes do ataque nuclear a Hiroshima - Kim Kyung-Hoon/Reuters - 24.nov.2019
Papa Francisco cumprimenta sobreviventes do ataque nuclear a Hiroshima Imagem: Kim Kyung-Hoon/Reuters - 24.nov.2019
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

25/11/2019 11h29

A viagem do papa ao Japão tem um duplo valor simbólico. Depois de desembarcar no sábado em Tóquio, ele esteve neste domingo em Nagasaki e Hiroshima. Como se sabe, Francisco é o primeiro papa jesuíta da história. E como todos os jesuítas sabem, Nagasaki foi a capital da Companhia de Jesus no Japão depois da introdução do cristianismo no país pelo glorioso jesuíta, são Francisco Xavier, o "apóstolo do Oriente".

Talvez por causa disso, o papa tenha fascínio pelo Japão desde jovem, como ele próprio revelou. Cedida em 1580 aos jesuítas portugueses pelo senhor e governador militar (daimyo) da região, Nagasaki tinha no início dos seiscentos 10 igrejas e um seminário onde foram formados os primeiros padres japoneses.

Como sabem os que viram "Silêncio", o belo filme de Scorsese (aluno de jesuítas) que se passa em Nagasaki, este primeiro capítulo da história dos jesuítas, e do cristianismo, no Japão, acaba em perseguições e martírios.

O Japão só será de novo acessível aos ocidentais em meados do século 19 e os Jesuíta retornam ao país apenas em 1908. Na altura, a Companhia de Jesus tinha muito menos influência na Europa e no resto do mundo. Mas Nagasaki sempre foi para os missionários jesuítas um farol que eles almejavam reacender para iluminar o catolicismo no Japão.

Quando a bomba atômica foi lançada sobre a cidade, em 1945, alguns noviços jesuítas locais e seu diretor, o padre Pedro Arrupe, contaram entre os sobreviventes da catástrofe. Eleito superior geral da Companhia de Jesus em Roma, em 1965, padre Arrupe, um basco espanhol, visitou Buenos Aires em 1973, onde foi recebido pelo futuro papa Francisco, então superior da ordem na Argentina.

Na memória longínqua de Francisco Xavier e seus companheiros do Japão quinhentista e na lembrança mais recente do testemunho do padre Arrupe sobre a tragédia de 1945, o papa Francisco preparou cuidadosamente sua viagem e seu programa no Japão.

No começo deste ano, ele recebeu em Roma jovens católicos de Nagasaki e uma sobrevivente da bomba de Hiroshima. Deixando claro que iria se pronunciar contra as armas nucleares, o papa e a Cúria romana também mantiveram discretas discussões com diplomatas dos países detentores de armas atômicas e em particular com a França.

O Estado francês é laico e o presidente Emmanuel Macron se declara agnóstico, embora tenha sido batizado católico e estudado numa escola jesuíta. Todavia, a França é o único país detentor de armas nucleares, cuja população é majoritariamente católica.

Segundo o jornal Le Monde, os dirigentes franceses se preocupam com uma possível "deslegitimização" das armas nucleares por um papa que parece evoluir na direção de uma "teologia da Paz".

Em todo caso, em 2017 Francisco já havia declarado: "é preciso condenar firmemente a ameaça do seu (das armas nucleares) uso, como também sua posse".

Nos discursos proferidos neste domingo em Nagasaki e em Hiroshima, Francisco foi bem mais longe, conclamando os governantes a renunciar ao armamento atômico, que ele classificou como "imoral" e pedindo uma negociação internacional para chegar a uma "paz desarmada".

Na sequência, o papa declarou ainda, "um mundo sem armas nucleares é possível e necessário... estas armas não nos defendem das ameaças contra a segurança nacional e internacional de nosso tempo".

Será preciso esperar os próximos meses e, talvez anos, para avaliar melhor as consequências dos discursos papais em Hiroshima e Nagasaki. Desde já, é possível dizer que eles representam um dos pontos altos, e mais radicais, do pontificado de Francisco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL