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O novo Reino Unido e a União Europeia

Premiê britânico, Boris Johnson - TOBY MELVILLE
Premiê britânico, Boris Johnson Imagem: TOBY MELVILLE
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

13/12/2019 22h04

Há duas series de problemas nas relações entre o Reino Unido e a União Europeia depois da vitória de Boris Johnson. Em primeiro lugar, como sublinharam muitos comentadores, há o resultado pró-europeu na Escócia, como também, o sucesso dos candidatos independentistas na Irlanda do Norte. De fato, pela primeira vez na história a Irlanda do Norte terá uma maioria de deputados favoráveis à união com a República da Irlanda.

Na Escócia, a primeira-ministra Nicola Sturgeon declarou estar "reforçada" para pedir autorização ao governo de Londres para organizar outro referendo sobre a independência. Boris Johnson avisou logo em seguida que a resposta será negativa. Sua decisão será a mesma no caso de projeto de unificação da Irlanda.

A larga de maioria de deputados de que ele passa a dispor deixa claro que o Parlamento bloqueará toda tentativa de fragmentar o Reino Unido. É preciso também sublinhar que, em razão da crise na Catalunha, a Comissão Europeia (UE) definiu uma regra simples e imperativa: as regiões que se separarem de um dos países membros deverão solicitar novamente sua adesão à UE, entrando no fim da fila dos países atualmente à espera: o Montenegro, a Sérvia e a Turquia, com os quais os procedimentos de adesão estão em curso, e a Albânia e a Macedônia, cuja negociação ainda nem começou.

Enfim, e talvez o mais importante, Boris Johnson terá o apoio decidido da Espanha, da Bélgica, da Itália, da França e de outros países da UE que lidam com separatismos, para barrar qualquer manobra independentista no Reino Unido. Nesse ponto, portanto, há convergência objetiva de interesses entre a UE e Londres.

Mais grave e mais imediato é o problema dos acordos comerciais que devem ser negociados entre o Reino Unido e a UE no próximo ano. Como muitos dos novos eleitores de Boris Johnson, os dirigentes da UE também estavam exasperados com as intermináveis querelas do Brexit. A clara escolha dos eleitores em favor da saída do Reino Unido encerra a etapa eleitoral do processo decisório. Resta que a próxima etapa está gerando novas divergências.

Boris Johnson garante o tratado de livre comércio entre o Reino Unido e a UE estará concluído no final de dezembro de 2020. Mas os negociadores europeus julgam o prazo "irrealista", segundo indicou o Le Monde. Para completar as incertezas, Trump acenou para Boris Johnson com uma proposta de tratado comercial "maciço" e "muito maior e mais lucrativo que qualquer acordo que possa ser feito" entre o Reino Unido e a União Europeia.

Na conferência internacional "Atlantic Dialogues" com que transcorre atualmente em Marrakesh, no Marrocos, um especialista italiano comentou: o twitter de Trump é mais uma prova que ele quer mesmo desmantelar a União Europeia."

A maioria dos analistas pensa que Boris Johnson irá negociar primeiro com a UE, com quem o Reino Unido teceu laços institucionais, econômicos e culturais durante 47 anos. Mas a intrusão de Trump pode alterar o rumo do acordo entre Londres e Bruxelas e conduzir a uma ruptura radical entre as duas partes, o hard Brexit.

Neste contexto, convém ainda lembrar que, malgrado a acachapante vitória parlamentar dos partidários do Brexit, a opinião publica britânica está longe de ser unanime sobre o Brexit. Johnson foi muito hábil na sua estratégia para obter a vitória parlamentar, num sistema majoritário feito para cravar uma maioria nítida: em cada um dos 650 distritos eleitorais britânicos, o vencedor leva tudo e os votos dos outros candidatos se perdem, ao contrário do sistema proporcional vigente em outros países.

A Inglaterra fundou a primeira democracia parlamentar do mundo e seu sistema eleitoral se completou em 1928, com a introdução do voto feminino. Trata-se, portanto, de regras democráticas bem implantadas e consensuais, funcionando há quase um século. Isto posto, é possível constatar a diferença entre números de votos e o número de parlamentares contra e a favor do Brexit.

Conforme demonstrou o economista britânico Sony Kapoor, os votos favoráveis ao Brexit somaram 47% do total dos sufrágios, mas obtiveram 57% das cadeiras parlamentares, enquanto os anti-Brexit reuniram 53% dos votos que redundaram em apenas 43% do total dos membros da Câmara dos Comuns. Comentando estas cifras, o historiador Adam Tooze, da universidade de Yale, observou: "Globalmente, o Reino Unido permanece profundamente dividido a respeito do Brexit". Os próximos meses irão demonstrar a resiliência ou a inconsistência desta divisão.