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Luiz Felipe Alencastro


O paradoxo turco

O Grande Bazar de Istambul; partido do presidente turco sofreu grave derrota na maior cidade do país - GETTY IMAGES
O Grande Bazar de Istambul; partido do presidente turco sofreu grave derrota na maior cidade do país Imagem: GETTY IMAGES
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

29/06/2019 14h27Atualizada em 29/06/2019 18h33

A derrota do candidato do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) na eleição para a prefeitura de Istambul representou um duro golpe para o presidente Recep Erdogan. Habituado a ganhar eleições, o presidente da Turquia e seu partido islâmico conservador, o AKP, perdem o pleito na maior e na mais rica cidade turca, com 16 milhões de habitantes e um terço do PIB do país. Desde de 2003, quando se tornou primeiro-ministro pela primeira vez, Erdogan tem moldado o regime ao seu feitio autoritário.

Num primeiro tempo, ele obteve que fosse anulado o resultado das eleições, vencidas em 31 de março por uma estreita margem de votos pelo candidato da oposição Ekrem Imamoglu. Mas o eleitorado de Istambul reagiu e nas novas eleições do último domingo (23), Imamoglu venceu folgado, com 54% dos votos. O primeiro discurso do novo prefeito, candidato da oposição unida e sobretudo da corrente laica que se inspira em Mustafa Kemal Ataturk, fundador e primeiro presidente da república da Turquia de 1923 a 1938, enfatizou as ideias liberais e a tolerância. Pregando o "fim das extravagancias e da arrogância", ele agradeceu seus eleitores, mencionando especialmente "os curdos, os armênios, os assírios (minoria étnica cristã), os judeus, os jovens e as mulheres".

Erdogan começou sua carreira política em Istambul e sabe que a antiga capital otomana constitui uma excelente base para as ambições nacionais de Imamoglu e de seu bloco político-partidário. Além das minorias que têm sido frequentemente atacadas por Erdogan e pelo AKP, o novo prefeito também recebeu apoio de muçulmanos liberais e de conservadores inquietos com a recessão econômica, marcada por uma contração de 2,6% do PIB em 2018. Depois de um pico de 25% no ano passado, a inflação beirou os 19%, no mês de maio, enquanto a taxa de desemprego atinge 14%. Houve uma melhoria relativa nas últimas semanas, mas os economistas da agência Bloomberg avaliam que a economia turca, "pode ter parado de encolher, mas ainda está arriscada a cair de novo na recessão".

Para agravar a situação, a Turquia está sob ameaça de sanções econômicas americanas. De fato, contrariando Washington e o comando da OTAN, da qual a Turquia é o segundo membro militar mais importante depois dos Estados Unidos, Erdogan assinou um contrato de 2,5 bilhões de dólares para adquirir misseis russos de defesa antiaérea S-400. O armamento deve ser entregue por Moscou durante o mês de julho.

Erdogan busca uma cooperação militar com Putin para travar o fortalecimento dos curdos da Síria. No mês de março, forças militares russas e turcas, agindo de maneira "independente, mas coordenada", segundo o governo de Ancara, intervieram em Tal Rifaat, no norte da Síria. Tal Rifaat está sob controle militar das Unidades proteção do povo (YPG), composta por soldados curdos que, apoiados pelos americanos, combatem o Estado Islâmico na região. Erdogan considera o YPG como uma "formação terrorista" aliada do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), proibido na Turquia.

Erdogan tem se beneficiado de uma situação geopolítica particular: nem os Estados Unidos, nem a União Europeia, nem a Rússia desejam enfraquece-lo ou, pior ainda, desestabilizar a Turquia, ponte sólida entre a Europa e Ásia no meio do caos do Oriente Médio.

Resta saber se eleitores turcos aceitarão apoiar durante muito mais tempo o regime autocrático e intolerante criado por Recep Erdogan

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL