Topo

Coluna

Luiz Felipe Alencastro


O segundo governo Trump

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o ex-secretário de Defesa James Mattis  - HILARY SWIFT/NYT
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o ex-secretário de Defesa James Mattis Imagem: HILARY SWIFT/NYT
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

21/12/2018 20h26

O pedido de demissão do general James Mattis, Secretário da Defesa dos Estados Unidos, abre uma nova fase da presidência Trump. Tal é a opinião de observadores autorizados da cena política americana. Decerto, Mattis não é o primeiro membro do alto escalão a se demitir do governo, sem falar nos assessores diretos que foram demitidos por Trump. Porém, o peso do Secretário da Defesa, comandante dos 1,3 milhão de militares da ativa que servem nos Estados Unidos e no resto do mundo, se sobrepõe ao de todos os outros ministérios. Além disso, prestigiado no Congresso e no establishment americano e europeu, James Mattis era considerado o último assessor experiente e moderado do governo Trump, depois da saída do chefe da Casa Civil John Kelly, do Secretário de Estado Rex Tillerson e do assessor econômico Gary Cohn.

Vários jornais americanos e europeus citaram uma frase do senador democrata Mark Warner, membro importante da Comissão de Informação (Intelligence Committe) do Senado. Para o senador, Mattis era "uma ilha de estabilidade no meio do caos do governo Trump" e sua demissão é "assustadora". Edward Luce, editorialista do Financial Times sobre a política americana prolongou no jornal londrino a reflexão inquietante do senador Warner: "O que vai acontecer agora? Independentemente da pessoa que substituirá Jim Mattis, o mundo perdeu uma importante boia de salvação".

A maioria dos comentadores ligou a demissão do Secretário de Defesa ao seu desentendimento com Trump sobre a retirada das tropas americanas da Síria e, em seguida, do Afeganistão. Também se falou de quem ganha (Rússia, Irã, o presidente sírio Bashar al-Assad, a Turquia e o ISIS) e de quem perde (curdos da Síria, os civis sírios e Israel) com a retirada das tropas americanas da Síria.

O caso de Israel atinge mais diretamente o governo do primeiro ministro Benjamin Netanyahu, na medida em que a atual estratégia israelense se apoia num arco de alianças regionais, incluindo a Arábia Saudita sunita, para barrar a política iraniana xiita no Oriente Médio. Contudo, Alon Pinkas, experiente diplomata israelense, relativiza a ruptura provocada pela saída de Mattis na política americana no Oriente Médio. Numa análise de mais longo prazo publicada em Telavive e reproduzida pelo Le Monde, Pinkas observa que há uma continuidade entre a política de Obama, que retirou as tropas americanas do Iraque em 2011, e a atual decisão de Trump sobre a Síria. No resumo de Piotr Smolar, correspondente do diário parisiense em Jerusalém, Pinkas atribui o recuo de Washington a vários fatores: a autonomia energética dos Estados Unidos em relação ao petróleo do Oriente Médio, o balanço desfavorável das guerras das guerras no Afeganistão e no Iraque e, enfim, a reorientação das prioridades americanas na Ásia, frente à crescente ameaça da China.

Desse ponto de vista, a virada da presidência Trump vai bem além do quadro militar do Oriente Médio. Rodeado de conselheiros que só respondem "sim", Trump se aparta mais ainda da velha geração globalista do partido republicano. Seus atuais assessores militares e diplomáticos endossam seu afastamento das grandes alianças e tratados internacionais concebidos no pós-guerra sob a égide de Washington, como a OTAN, a Organização Mundial do Comércio e a própria ONU. Esta parece ser a principal inflexão gerada pela demissão de Jim Mattis, que marca o início de uma segunda presidência Trump.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL