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Luiz Felipe Alencastro


A União Europeia e a aliança franco-alemã

22.jan.2019 - O presidente da França, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, assinam o tratado franco-alemão na cidade de Aachen, na Alemanha - AFP
22.jan.2019 - O presidente da França, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, assinam o tratado franco-alemão na cidade de Aachen, na Alemanha Imagem: AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

23/01/2019 19h28

Na terça-feira (22), Angela Merkel e Emmanuel Macron assinaram em Aachen, na Alemanha, o novo tratado franco-alemão. Aachen, Aix-la-Chapelle em francês, foi a capital do império de Carlos Magno (747-814), considerado um dos pais da Europa. Tratados europeus importantes foram discutidos e assinados na cidade entre os séculos 17 e 19. O texto de terça-feira completa o Tratado do Eliseu (1963), estabelecido entre os dois países pelo general De Gaulle e Konrad Adenauer, chefe de governo da Alemanha Ocidental.

Franceses e alemães saravam as feridas da Segunda Guerra e o ódio contra os invasores nazistas ainda era vivaz na França. Porém, uma nova era se abria na Europa. Depois da independência da Argélia (1962) e do fim do colonialismo francês, De Gaulle se aliava à Alemanha Ocidental para ampliar a construção da União Europeia (UE). Na época, a hegemonia francesa na Europa Ocidental era decisiva.

Membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, potência nuclear e econômica, dirigida por um presidente prestigioso e prestigiado, a França impunha sua vontade sobre os outros cinco países membros do grupo inicial da UE (Alemanha Ocidental, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo).

Hoje tudo mudou, a UE se expandiu e se dividiu com o Brexit, a emergência de blocos regionais como o grupo de Visegrad (Hungria, Polônia, República Checa e Eslováquia) e, sobretudo, com movimentos anti-europeus na França, Itália, Holanda, na Bélgica e, em menor medida, na Alemanha. Ou seja, nos países fundadores da UE.

Desde a reunificação do seu território (1990), a Alemanha se tornou o país mais populoso e economicamente mais poderoso da UE. Com a entrada dos países da Europa Central (2004-2007), a Alemanha ganhou mais centralidade na UE.

Acresce que o movimento dos coletes amarelos, que completa três meses, mergulha a França numa crise social e política sem precedentes desde 1968. Assim, a Alemanha atual pesa mais que a França na parceria entre os dois países, como também na Europa.

Os 28 artigos do Tratado de Aachen criam um conselho franco-alemão de economistas e outros especialistas para favorecer uma "cultura econômica comum" no âmbito do direito, da legislação e da política econômica. Na zona fronteiriça, serão criados "eurodistritos" para facilitar a gestão dos municípios situados na área.

Uma assembleia franco-alemã, formada por 50 deputados de cada país auxiliará a cooperação entre Berlim e Paris. Tal aprofundamento nas relações entre os dois países reforça o polo central da UE às vésperas da saída do Reino Unido.

Comentando o Tratado de Aachen no jornal londrino The Guardian, Simon Tisdall escreve: "Felizmente Macron e Merkel, apesar de suas falhas e fraquezas, são capazes de fixar uma perspectiva mais ampla. Na altura em que a maioria dos lideres britânicos de mentalidade estreita não conseguem enxergar além de seus narizes empinados".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL