Topo

Coluna

Luiz Felipe Alencastro


Trump, Theresa May e Macron: três líderes na berlinda

13.jul.2018 - Theresa May, premiê britânica, e Donald Trump em Chequers, a casa de campo do primeiro ministro do Reino Unido - REUTERS/Hannah McKay
13.jul.2018 - Theresa May, premiê britânica, e Donald Trump em Chequers, a casa de campo do primeiro ministro do Reino Unido Imagem: REUTERS/Hannah McKay
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

15/04/2019 14h55

Os líderes das mais antigas democracias ocidentais encaram nos próximos dias questionamentos que ameaçam seus mandatos e ampliam a crise política que atinge, em graus diferentes, seus respectivos países.

O problema de Donald Trump decorre, entre outros fatores, de sua perda de maioria no Congresso, depois da vitória democrata na Câmara, nas eleições de mid-term de novembro. Voltaram à tona, agora através de mecanismos institucionais mais incisivos, demandas para que Trump entregue as suas declarações de imposto dos últimos cinco anos, como o fizeram os precedentes presidentes americanos.

Mais grave ainda, Trump pode ser atingido pelas revelações do Mueller Report sobre a interferência russa nas presidenciais americanas. Como se sabe, o ministro da Justiça, William Bart, fez um relato resumido do Mueller Report, concluindo que nem Trump, nem nenhum membro de sua equipe de campanha presidencial "conspirou ou se coordenou com a Rússia". Mas o comando democrata da Câmara quer ter acesso à integralidade das 400 páginas do Relatório para saber se Trump entravou o trabalho da Justiça durante as investigações do procurador Robert Mueller. Se for caracterizado, o crime de "obstrução da Justiça" conduz à abertura de um processo de impeachment no Congresso. O braço de ferro entre a Casa Branca e o Congresso se desdobrará então num conflito jurídico que levará a Corte Suprema a redefinir os poderes do Legislativo e do Executivo Federal.

Theresa May lida com o momento mais tormentoso atravessado pelo Reino Unido desde a Segunda Guerra. May não causou a crise do Brexit. Mas sua intransigência e falta de diálogo com as instâncias partidárias nacionais e europeias agravaram consideravelmente o impasse em que se encontra seu governo e seu país. Para moderar as críticas de que tem sido alvo em seu próprio partido, Theresa May concordou em deixar a chefia do governo em outubro, na última etapa do Brexit, ou antes disso.

"Theresa May é a pior política de todos os tempos?" tal é o título demolidor de um artigo publicado no final de março no New York Times por Jenni Russell, colunista do The Times de Londres. "A ignorância deliberada e a obstinação da Sra. May significa que ela nunca entendeu o cenário (político) em que ela está agindo...", completa Jenni Russel. Tendo enterrado a carreira partidária de Theresa May, o agravamento do Brexit pode também abalar gravemente o partido conservador e desencadear, a médio prazo, a fragmentação do Reino Unido.

Na França a crise é de outra natureza e Macron põe seu mandato em jogo hoje à noite. Todo sábado, a 20 semanas seguidas, há manifestações, frequentemente insurrecionais, de dezenas de milhares de pessoas, em Paris e em muitas cidades francesas. O alvo central dos manifestantes é Emmanuel Macron e sua maneira autocentrada, a maioria diz arrogante, de exercer a presidência.

Porém, Macron não ficou trancado no palácio presidencial ouvindo de longe os protestos. Bem ao contrário. Reagindo às demandas generalizadas e diferenciadas, o presidente foi ao encontro dos cidadãos e promoveu, ao longo de três meses, o "Grande Debate" nacional. Participando diretamente em 14 reuniões em vários lugares do país, onde encontrou eleitores regionais, jovens, intelectuais, trabalhadores, Macron também estimulou cerca de dez mil reuniões que envolveram meio milhão de franceses. Um site oficial "Granddebat.fr" recebeu quase 2 milhões de sugestões, críticas e propostas para mudar a política e a sociedade francesa.

Essa montanha de dados foi processada pelos assessores de Macron e o país inteiro espera as respostas do presidente. Hoje à noite, às 20:00 (hora francesa), Macron dará as primeiras respostas ao clamor que sacode o país há 5 meses. Se suas propostas não estiverem à altura, no próximo sábado haverá mais gente nas ruas de Paris e das grandes cidades.

Nota: a fala de Macron às 20:00 foi suspensa por causa do trágico incêndio da catedral Notre-Dame

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL