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Luiz Felipe Alencastro


Atribulações dos libaneses no Líbano

REUTERS/Goran Tomasevic/File Photo
Imagem: REUTERS/Goran Tomasevic/File Photo
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

03/11/2019 19h33

A demissão do primeiro-ministro libanês Saad Hariri abre um novo período de incertezas no país e no Oriente Médio. Para entender a crise, é necessário resumir o contexto geopolítico da região. O estopim das manifestações que derrubaram o governo é significativo: a introdução de um imposto sobre as chamadas por WhatsApp.

Ora, esse tipo de ligação telefônica é crucial nas comunicações entre os libaneses, seus parentes e conhecidos espalhados pelo mundo. Sabe-se que o número de libaneses e seus descendentes vivendo no exterior, sobretudo no Brasil, excede largamente os 6 milhões de habitantes registrados no Líbano.

Note-se ainda que dados da União Europeia mostram que 30% da população vivendo no país é constituída de refugiados, principalmente sírios e palestinos. Proporcionalmente à sua população nacional, o Líbano é o país do mundo que recolhe o maior número de refugiados.

Com uma população dividida entre cristãos (36%), majoritariamente católicos maronitas, muçulmanos sunitas (28%) e muçulmanos xiitas (28%), além de várias minorias religiosas, o Líbano é uma república parlamentar. Seguindo um acordo tático intercomunitário, o presidente da república, eleito indiretamente pela Assembleia, é sempre um maronita, o primeiro ministro, chefe do governo, deve ser um muçulmano sunita e o presidente da Assembleia, um muçulmano xiita.

A guerra civil que devastou o país entre 1975 e 1990 deixou sequelas graves. As infraestruturas foram reconstruídas, mas há falta de energia e de água corrente, a rede internet é ruim e a coleta de lixo péssima. A divisão do Estado em feudos submetidos às comunidades religiosas dificulta a gestão governamental. Neste contexto, o afluxo crescente de refugiados sírios agravou a situação social. Acresce que o Líbano sofre o impacto direto dos conflitos regionais envolvendo a Arábia Saudita, o Irã e Israel.

Cada um dos principais componentes comunitários do Líbano possui um protetor externo: os maronitas são protegidos pelas potencias ocidentais e em particular pela França, os sunitas pela Arábia Saudita e os xiitas pelo Irã.

Em novembro de 2017, o príncipe saudita Mohammed Ben Salman, tentando avançar suas cartas no Líbano em detrimento dos iranianos, sequestrou o primeiro ministro Saad Hariri em Riad para forçá-lo a romper com o partido xiita, decisivo na Assembleia. Hariri conseguiu voltar para Beirute e reorganizou seu governo, sem resolver os problemas que afligem a população.

Os protestos em Beirute e nas principais cidades libanesas que levaram à sua demissão na terça feira passada (29), têm donde a ver com o quadro mais amplo de instabilidade e desordem administrativa que há anos reina sobre o país.

Há, no entanto, uma novidade emergindo nos movimentos de rua. Pela primeira vez, de maneira maciça, libaneses de todas as religiões ou agnósticos protestam juntos contra a ineficiência do setor publico e do governo dividido entre maronitas, sunitas e xiitas. A ideia de um Estado secular, respeitando todas as religiões, sem ser fatiado por cada uma delas, como é o caso atualmente, se firma no horizonte.

Numa entrevista recente ao jornal Le Monde, o economista e ex-ministro Charbel Nahas, dirigente de uma associação voltada à construção de um "Estado laico, democrático, justo e eficaz", declarou que o poder político fundado nas comunidades religiosas entrou em colapso.

Para ele, os manifestantes, que continuam nas ruas a despeito da demissão de Hariri, desejam uma alternativa à crise que paralisa o país, e esta alternativa "deve ser um Estado laico". Numa região do mundo em que as três grandes religiões monoteístas entram periodicamente em conflito, a ideia de laicidade pode, de fato, ter um grande alcance político.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL