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Luiz Felipe Alencastro


Xi Jinping e a reinvenção da China imperial

Peter Parks/AFP Phogo
Presidente chinês, Xi Jinping, após seu discurso na cúpula do Fórum de Cooperação Ásia-Pacífico (Apec) realizada em Papua Nova Guiné Imagem: Peter Parks/AFP Phogo
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

31/12/2018 21h26

No último mês de outubro, o presidente chinês Xi Jinping inaugurou a maior ponte do mundo. Cruzando o estuário do rio das Pérolas, a ponte de 55km liga a cidade de Zhuhai, na província de Cantão (Guangdong), a Macau e a Hong Kong. Para além da proeza da engenharia chinesa, a obra tem uma significação histórica mais ampla.

A rota suspensa de aço amarra as ex-possessões portuguesa e britânica ao continente e apaga mais ainda as marcas da dominação europeia no território da China. Com essa e muitas outras iniciativas, Xi Jinping afirma seu grande desígnio: restabelecer o prestígio e o poderio do império milenar chinês.

Durante o período de Mao Tse-Tung (1949-1976) o regime efetivou a revolução comunista. Em seguida, na época de Deng Xiaoping (1978-1992), houve a abertura econômica e fixação de novos objetivos nacionais sintetizados na palavra de ordem lançada pelo próprio Deng: "Enriqueçam!". O programa de Xi Jinping, no poder desde 2012, é o "sonho chinês", com a meta de transformar seu país na maior potência mundial em 2049, centenário da revolução comunista. 

Na realidade, desde a morte de Mao, nenhum outro presidente do país concentrou tanto poder como Xi Jinping. Mas há uma diferença entre os dois dirigentes. Enquanto a geopolítica de Mao era essencialmente defensiva, destinada a consolidar seu próprio poder, a ditadura comunista e as fronteiras do país, Xi Jinping desenvolve uma ampla estratégia de expansão dos interesses chineses. Em 2017, Pequim construiu em Djibuti sua primeira base militar em território estrangeiro.

Djibuti, situado na ponta meridional do Mar Vermelho, é um porto crucial para o transporte de matérias-primas, sobretudo de petróleo, entre a África e a China. Tendo se tornado o primeiro parceiro comercial da África, a China agora faz proselitismo de seu sistema capitalista autocrático entre os dirigentes africanos. 

No quadro das Nova Rota da Seda, agrupando rotas terrestres e marítimas entre a China e a Europa, com cerca de um trilhão de dólares de investimentos chineses previstos, Pequim também avança seus peões na União Europeia (UE). Comprando terminais portuários na Grécia, na Espanha, na Itália e na Bélgica, as empresas públicas chinesas já controlam 10% da atividade portuária da UE. Nos Balcãs e na Europa Central, a China organizou o grupo dos 16 + 1 que reúne países membros e não membros da UE num plano de investimentos em infraestruturas e alta tecnologia.

Frente à ofensiva econômica e geopolítica chinesa, alguns líderes europeus lançaram o sinal de alarme. O primeiro a se manifestar de maneira frontal foi o então ministro do exterior alemão, Sigmar Gabriel, que declarou em agosto de 2017, numa reunião com os diplomatas franceses: "Se nós não conseguirmos...desenvolver uma estratégia comum com relação à China, a China irá dividir a Europa".

Na semana passada, o ex-ministro do exterior da França, Hubert Védrine, foi ainda mais direto. Para ele, a ameaça chinesa deve levar os europeus a se reaproximarem da Rússia e de Vladimir Putin. "A rejeição ocidental, mesmo baseada em motivos sérios, empurra os russos para o lado dos chineses, na altura em que o maior desafio mundial é a emergência da China". 

Xi Jinping manobrou no começo de 2018 para revogar o limite de dois mandatos presidenciais inscrito na Constituição. Doravante, ele pode se tornar presidente perpétuo da China. Terá assim todo o tempo necessário para consolidar os objetivos chineses nas quatro partes do mundo.