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Luiz Felipe Alencastro


Hong Kong e a ditadura de Beijing

21.junho.2019 - Manifestante atira um ovo contra o quartel da polícia em Hong Kong. Segundo os organizadores, cerca de 2 milhões de pessoas se juntaram aos protestos e possuem uma sére de demandas, como a retirada de uma polêmica lei de extradição para a China e a libertação de presos políticos - AFP
21.junho.2019 - Manifestante atira um ovo contra o quartel da polícia em Hong Kong. Segundo os organizadores, cerca de 2 milhões de pessoas se juntaram aos protestos e possuem uma sére de demandas, como a retirada de uma polêmica lei de extradição para a China e a libertação de presos políticos
Imagem: AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

21/06/2019 16h03

As manifestações atualmente em curso em Hong Kong atingiram um patamar que pode desencadear duras represálias de Beijing. À diferença dos precedentes atos de protesto, os manifestantes, muitos deles jovens estudantes, bloqueiam a chefatura de polícia e invadem prédios administrativos do território.

Semiautônomo, Hong Kong tem um sistema político, econômico e judiciário independente de Beijing, conforme a Basic Law que regulou a passagem da ex-colônia britânica para o estatuto de "Região Administrava Especial" chinesa em 1997.

Foram justamente as ameaças à independência jurídica do território que geraram os recentes protestos. Caso as manifestações de hoje terminem sem incidentes graves persistem ainda as tensões que envolvem o ato convocado para o dia primeiro de julho, aniversário da retrocessão de Hong Kong à China.

As ocupações de prédios públicos se somam ao impacto do extraordinário protesto coletivo ocorrido no último domingo (9). Segundo os organizadores, havia dois milhões de pessoas protestando nas ruas da cidade no dia 9. Mesmo que o total tenha sido menor, se situando em volta de um milhão de pessoas, se trata de um possível recorde mundial visto que o território conta apenas com 7,4 milhões de habitantes.

Sucede que este movimento questiona a autoridade de Beijing na altura em que Xi Jinping arrocha seu controle sobre o regime, endurecendo ainda mais a ditadura chinesa. Resta que, Xi Jinping, considerado o mais poderoso líder chinês desde Mao-Tse-Tung, não pode fazer o que quer em Hong Kong. Como observou o Financial Times, mais de 60% dos investimentos estrangeiros diretos na China passam por Hong Kong.

No fim do ano passado, o território já começou a sentir os efeitos negativos da guerra comercial sino-americana. Assim, o crescimento anual econômico caiu para 3%, comparados aos 3,8% registrados em 2017. Neste contexto, temeroso com as consequências do endurecimento chinês sobre o sistema jurídico e político do território, Tara Joseph, presidente da Câmara de Comercio americana de Hong Kong, declarou, segundo a imprensa europeia, "a credibilidade de Hong Kong no nível financeiro internacional está em jogo".

De fato, contrariamente ao estatuto outorgado a outras cidades chinesas como Shanghai ou Shenzen, Hong Kong goza de uma autonomia plena do ponto de vista econômico e financeiro. Milhares de empresas estrangeiras, compostas por bancos, consultorias e companhias de seguro, como também centenas de grandes empresas estatais chinesas, se beneficiam em Hong Kong de regras jurídicas inexistentes na China.

Desde de 1997, Hong Kong recebe chineses de todos os estratos sociais que escapam da opressão do regime de Beijing. Hong Kong sofre assim de uma explosão de preços no setor imobiliário. As tensões das últimas semanas aumentaram o fluxo da emigração de jovens diplomados para outros continentes.

Se a crise política se agravar é provável que mais empresários, técnicos e outros habitantes saiam de Hong Kong para Vancouver, Melbourne ou Auckland, destino privilegiado dos chineses que escapam da autocracia de Xi Jinping.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL