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Balas não têm mais CPF certo: o que mudou com atuação do PCC no Paraguai

Herculano Barreto Filho

Do UOL, em São Paulo

17/10/2021 04h00

A onda de assassinatos na fronteira com o Paraguai é apenas mais um capítulo sangrento da disputa pelo poder do crime organizado na divisa com o Brasil. O conflito se intensificou nos últimos cinco anos, após a morte de Jorge Rafaat Toumani, atingido por 16 tiros de fuzil em uma emboscada em junho de 2016 com a participação do PCC (Primeiro Comando da Capital) na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero.

A região, estratégica na rota do tráfico internacional de drogas para o país, convive com um acirramento da violência devido aos desentendimentos entre grupos locais e a facção criminosa de São Paulo, aponta a cientista social Camila Nunes Dias.

Em entrevista ao UOL, a pesquisadora, que integra o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, vê o crime como o início da ruptura de uma espécie de pacto de paz assegurado por Rafaat, que era conhecido na região como o "rei da fronteira".

Com a chegada do PCC há cerca de dez anos a Pedro Juan Caballero, que faz fronteira com Ponta Porã (MS), a especialista diz que houve momentos de tensão com os "brasiguaios", como são chamados os grupos criminais na região desde a década de 1990. Contudo, a situação era controlada até o assassinato de Rafaat.

Apesar da violência, os moradores não achavam que era uma região perigosa. Até a morte de Rafaat, havia uma percepção de que os assassinos tinham um alvo. Hoje, [para os moradores] as balas não têm mais CPF certo"
Camila Nunes Dias, professora na Universidade Federal do ABC e pesquisadora da USP

"Com o Rafaat, não havia ameaça aos moradores ou crimes comuns, como roubos e furtos. Ele ocupava uma posição importante do ponto de vista econômico e até político. A morte dele abriu espaço para a disputa de controle na região. E o PCC tem essa pretensão de ter uma hegemonia onde atua", complementa.

Autora do livro 'A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil' escrito em parceria com o jornalista Bruno Paes Manso, a pesquisadora elabora estudos sobre o crime organizado na fronteira com o Paraguai desde 2014.

"A violência acaba atingindo outras pessoas que não têm relação direta com o universo criminal. É uma dinâmica dos centros urbanos, onde a violência é um elemento generalizado da resolução de conflitos. Uma dinâmica introduzida por conta da presença de criminosos brasileiros", analisa a cientista social.

"O que existe ali é o PCC querendo dominar completamente o território, eliminando qualquer grupo adversário que se manifeste contra a ação deles na fronteira. Estamos falando de uma região que serve de base para a criminalidade, onde há um histórico de mortes", avalia o juiz federal aposentado Odilon Oliveira, especializado no crime organizado na fronteira.

Forças de segurança dos dois países agora articulam uma força-tarefa para garantir a legalidade na troca de informações no combate ao narcotráfico na região.

PCC sem raízes no Paraguai

Camila Nunes Dias ainda traça um paralelo entre a atuação da organização criminosa em São Paulo e no país vizinho. E vê os episódios recentes de violência, como a chacina que resultou em quatro mortes, como parte da realidade na divisa entre Brasil e Paraguai.

"O PCC não tem enraizamento local no Paraguai. Não tem aquela ligação com a comunidade. A atuação não é como em São Paulo, onde o grupo regula a violência e os conflitos. No Paraguai, eles [criminosos ligados ao PCC] são estrangeiros. De vez em quando, essa violência explode na região. Depois, há uma reduzida, e volta de novo", compara.

Bilhete foi deixado na cena do crime - Reprodução/Twitter/La Nación Paraguay - Reprodução/Twitter/La Nación Paraguay
Bilhete foi deixado na cena do crime
Imagem: Reprodução/Twitter/La Nación Paraguay

Segundo a pesquisadora, bilhetes deixados em locais de crime, como no assassinato do policial federal Hugo Ronaldo Acosta, encontrado na última terça-feira (12) dentro de um carro em Pedro Juan Caballero, muitas vezes são recursos usados para despistar as autoridades. "Pode ser só uma forma de encobrir a atuação de grupos criminais em assassinatos", argumenta.

Ligações suspeitas

Atentados contra servidores públicos também fazem parte da realidade local na fronteira entre Brasil e Paraguai, aponta a pesquisadora Camila Nunes Dias.

"Há ali uma estreita relação entre a economia legal, o mundo político e o comércio ilícito. É muito difícil separar esses três universos. Nesse cenário, há histórico de assassinatos de pessoas fora do âmbito da economia criminal, como políticos, policiais e até jornalistas. É uma configuração local onde tudo está muito atrelado".

A onda de assassinatos começou no dia 8 deste mês, quando o vereador Farid Charbell Badaoui Afif foi morto a tiros em Ponta Porã (MS).

13.out.2021 - Homem morre e outros dois ficam feridos em ataque na fronteira entre Brasil e Paraguai - Reprodução da internet - Reprodução da internet
13.out.2021 - Homem morre e outros dois ficam feridos em ataque na fronteira entre Brasil e Paraguai
Imagem: Reprodução da internet

Na quarta (13), atiradores em motos atacaram um grupo de pessoas em Capitán Bado, cidade paraguaia próxima de Pedro Juan Caballero, deixando um morto e dois feridos. Segundo a polícia paraguaia, o alvo do ataque era o vereador Ismael Valiente. Atingido no rosto e no braço, o político foi levado às pressas para um hospital, onde está internado em estado estável.

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